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On the Road

On The Road – Pé na estrada – Jack Kerouac

“Um dia ele (irmão de Johnny) me deu um livro que se tornaria como um Corão para mim. Uma brochura com orelhas, surrada e manchada com Deus sabe o que. “On the Road”, escrito por algum imbecil com um nome estranho de sapo que era quase impronunciável para a minha língua na adolescência, que tinha encontrado seu caminho a partir da prateleira do meu irmão mais velho até as minhas gananciosas garrinhas. (…)
“On the Road” foi uma mudança de vida para mim.”
“Já O “Uivo” de Ginsberg me deixou balbuciando como um idiota, surpreendeu-me que alguém poderia regurgitar tal honestidade para o papel”.Johnny Depp


Sobre “Uivo”, ja temos aqui um belo post em páginas anteriores, assim como outros escritores e obras marcantes na vida de Depp.
Ha tempos estou atrás de On the road, e só consegui o livro ha pouco tempo. Poderia escrever este post sobre ele, mas não tão bem quanto alguém que já leu várias vezes e como ela mesma diz, é uma leitura que não termina quando o livro acaba. E ela foi além… e além assim como Johnny fez.

Então, tive a feliz idéia de convidar a “Ro” do fórum DL para escrever este post e claro eu não poderia esperar menos. Mesmo “enxugando” ficou tão grande, que sugeri fizéssemos em duas partes.

Hoje apresentamos a primeira parte que fala sobre o livro e daqui a dois dias publicaremos a segunda parte (imperdível) sobre Jack Kerouac e a Geração Beat.
O momento é apropriado considerando que foi lançado o filme recentemente dirigido pelo brasileiro Walter Salles.

Ro:
Com o objetivo de entender porque este livro havia encantado a Johnny Depp, iniciei a leitura sem sequer ler o epílogo (prefiro ser surpreendida), esperando uma sedutora aventura de jovens mochileiros pedindo carona pelas estradas desérticas dos Estados Unidos, com relatos até ingênuos de uma época remota, onde os riscos e perigos da estrada pareciam não existir e cujo encanto terminou no final dos anos 70.

O que encontrei foi um momento efervescente, com mentes que não sossegavam, em uma viagem cuja trajetória foi descrita em prosa irreverente, fluida e livre, como eu não poderia imaginar para a época em que foi produzida.

Com a certeza que deveria ter lido há pelo menos 30 anos, voltei ao epílogo e depois fui buscar informações sobre o autor Jack Kerouac e sua geração inquieta, a Geração Beat.

O livro não existe por si só. É reflexo do desajustado e instigante escritor e de uma geração inconformada com o seu momento histórico e social.

Sem entrar no mérito da prática do consumo de drogas, da negação aos valores morais vigentes ou de outras questões controversas, há de se considerar o mérito dos “loucos” que ao longo da história da humanidade fazem a sociedade ao menos perguntar: será?

Convenhamos, não é leitura para terminar na última página do livro.

Portanto, timidamente, trago um mínimo de informações, citações e minhas impressões ao relatar o quanto e porque este livro também me encantou.

A “HISTÓRIA”

O início traz o episódio que deu sentido ao estilo da prosa que se seguiu.

O universitário Sal Paradise tem acesso às cartas que o delinqüente juvenil Dean Moriarty, prestes a sair do reformatório, escreveu ao seu amigo Chad King pedindo que o ensinasse sobre Nietzsche e tudo o mais sobre o maravilhoso conhecimento intelectual que possuía. Sua forma ingênua e espontânea chamou sua atenção. O encontro entre ele e seus amigos, entediados e inconformados com o rumo que uma sociedade pós-guerra, estava tomando, pareceu-lhe um encontro iluminado. Não precisaram de muito para decidir cair na estrada em busca de viverem a liberdade sem limites pela quai ansiavam. Daí em diante, o relato se dá exatamente como foi vivido. No ritmo, na velocidade, na intensidade, sem tempo para pensar. Aí, no próximo segundo, outro fato se sucede, outra fala se dá, ininterrupta.

A descrição das pessoas, dos hábitos, das relações, dos lugares, fatos e do Jazz, se dá às vezes num ritmo frenético e às vezes tedioso, tal como uma viagem sem fim, sem rumo, regada a alucinógenos, aparentemente sem pressa, mas na ebulição do desejo de viver sem regras e sem limites, em direção oposta às convenções da sociedade naquele tempo, meados dos anos 40.

Pude ver as expressões, o andar acelerado ou lento, a sombra, o sol, as luzes, o romance e a rejeição, e outra paisagem surge, outra luminosidade atinge as superfícies. A mente, “alucinada” ou não, se apropria de tudo o que vê e de tudo o que sente e o tédio se apresenta nos momentos em que Sal retorna à vida cotidiana, ao lugar comum, na ânsia de novamente cair na estrada.

Durante a leitura, esse ritmo nos leva a crer que o quê está valendo é a jornada e o sabor da prosa, é a respiração no compasso da mente. Às vezes sem fôlego.

Não houve a espera de um final feliz ou triste.

Não houve a expectativa da moral da história.

Mas para saber se há, só lendo claro, pois não irei contar o final.

A expectativa está em cada um de nós, assim como a forma de entender os fatos relatados e o período em que se deu.

O LIVRO

Ao escrever sobre as viagens com o amigo Neal Cassady, cruzando os Estados Unidos, de leste a oeste, partindo de New Jersey, ao longo da “Rota 66”, Jack Kerouac, contou-as exatamente como aconteceram, formulando frases da maneira em que os fatos se sucediam, sem pontuação ou parágrafos. Assim nasceu On the Road, cujo manuscrito sofreria sete anos de rejeição até se publicado, em 1957, em edição que acrescentou pontuação e parágrafos desnecessários, a contragosto do autor.

O livro não é autobiográfico, mas sua história e suas fontes de inspiração sugerem que Sal Paradise é o alter-ego de Jack Kerouac que tem em Dean Moriarty, a representação de seu amigo Neal Cassady, e onde Carlo Marx é o poeta Allen Ginsberg e Old Bull Lee é o escritor William Burroughs.


Jack Kerouac e Neil Cassady

Citações:

“…Fã alucinado de Charlie Parker e outros furacões em formação dos anos 40, Jack escreveu sua obra-prima no ritmo disparado do melhor be-bop, com longos parágrafos quase sem pontuação, transformando-os em solos suados de saxofone, dando a seus leitores a impressão de que tocava as teclas da máquina de escrever enquanto o pé esquerdo acionava freneticamente um chimbal de bateria.
E era nos bares de jazz que seus protagonistas, Sal Paradise e Dean Moriarty, tinham suas apoteoses, como fiéis em transe num templo abençoado e povoado por santos negros, drogados, e seus metais celestes dos quais tiravam o ritmo que Sal e Dean queriam impor a suas vidas, cruzando a rota 66 e o México em louca disparada por quilômetros intermináveis e repletos de esperança…” (Alexandre Carvalho dos Santos, Revista Interlúdio) http://zip.net/bfhbZ

“Bob Dylan fugiu de casa depois de ler On the Road. Chrissie Hynde, dos Pretenders, e Hector Babenco, de Pixote, também. Jim Morrison fundou The Doors. No alvorecer dos anos 90, o livro levou o jovem Beck a tornar-se cantor, fundindo rap e poesia beat. Jakob Dylan, filho de Bob, deixou-se fotografar ao lado da tumba de Jack em Lowell, Massachusets, como o próprio pai o fizera, vinte anos antes. Em 1992, Francis Coppola (o produtor), Gus van Sant (o diretor) e Johnny Depp (o ator) envolveram-se numa filmagem nunca concretizada do livro – e, apesar da diferença de idade, os três compartilharam o mesmo fervor reverencial pela obra.” (Eduardo Bueno, prefácio).


Bob Dylan e Allen Ginsberg junto ao túmulo de Jack Kerouac em 1976

No prefácio, Eduardo Bueno descreve, sinteticamente, a importância de On the Road como influência para as artes:

“…toda uma legião de escritores, artistas, cineastas, dramaturgos e músicos , a geração que se multiplicou em muitas , seria profundamente influenciada pelo estilo e pelas visões de Jack Kerouac. Difícil imaginar a obra de Sam Shepard, de Bob Dylan, de Charles Bukowski, de Jim Morrison, de Lou Reed, de Tom Wolfe, de Bret Easton Ellis, de Joni Mitchell, de Wim Wenders, de Hunter Thompson, de Neal Young, de Jim Jarmush, de Jack MacInerney, de Beck, de Bobo, de Tom Waits, de Gus Van Sant, de Bob Wilson sem On the Road. Todos eles pagaram tributo à fraqueza fluídica e generosa do católico louco e místico que viu a luz nos trilhos e trilhas da América.”

AS VERSÕES

ON THE ROAD, O MANUSCRITO ORIGINAL.

Leiloado em 2001, arrematado por dois milhões e quatrocentos e vinte mil dólares, foi publicado em 2007.

Trata-se de um rolo e, diz a lenda, escrito em apenas três semanas, em abril de 1951.

“Um bloco só de texto, sem parágrafos, sem divisão em partes ou capítulos. Exatamente como concebido (…) O que estava sendo oferecido, naquele leilão de 2001, não era apenas um original de obra, porém a matriz de um mito.”

(Claudio Willer, Agulha Revista de cultura) http://zip.net/bxhchm

A VERSÃO EDITADA EM 1957.

No Brasil, On the Road: Pé na Estrada, em duas edições:

– Brasiliense, 1984, na tradução de Eduardo Bueno e Antonio Bivar.

– Reedição pela L&PM Pocket, tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito, em 2004.

Nesta edição, a que li, indico a introdução e o posfácio. Perfeitos.

Claudio Willer, em seu texto na Agulha Revista de Cultura, questiona:

“Qual dos On the Road se deve ler? O original ou aquele editado em 1957?”

E complementa:

A edição de 1957

“…fez história: sua leitura é fruição, e também participação, gesto político ao atestar sua atualidade. É continuar acreditando que literatura é aventura; e que, assim concebida, pode mudar a vida e transformar o mundo.”

O original, On the Road II

“…primeiro a ser escrito e último a ser lançado, possibilita uma espécie de prazer voyeurista. É como olhar por trás dos bastidores. A vida íntima, os protagonistas desnudados. A história, menos ficcionalizada…”

“A leitura mais recomendável, mais instigante, portanto, não é de uma ou outra das duas versões, mas do que está entre elas. Compará-las; e assim enxergar mais naquilo que Penny Vlagopoulos bem designa como a mais monumental das cartografias sobre o desejo humano.”

Dica: Leiam ao som de Charlie Parker e boa viagem!

———————-x———————–

E aí?

Vai uma carona?

Fontes:
1 – O que é ser Beat? – Matérias e Biografias. Por Márcio Ribeiro.
2 – Wikipédia, a enciclopédia livre.
3 – Alexandre Carvalho dos Santos
4 – Caderno Cultural
5 – Agulha Revista de cultura. Claudio Willer

Não percam a segunda parte deste post daqui a dois dias.

22 thoughts on “On the Road

  1. Rosa Maria disse:

    Uau! Que beleza! Para iniciados ou não, um belo apanhado sobre esse magnífico livro que inspirou a tantos,e continua inspirando.Pena que o projeto com Johnny não vingou! Ele teria sido um Sal Paradise maravilhoso!
    Ah, eu aceito a carona sim, rumo à segunda parte do post! 😛

  2. Barbie disse:

    Fantastico 🙂

  3. Ro disse:

    Sá, amei a tua apresentação. Também digo que não poderia esperar nada diferente.
    Só tenho que agradecer, e agradecer, a oportunidade.
    Obrigada pelos comentários meninas!
    E Rosa, estou começando a achar que tu tens o dom do presságio. Verás porque.hahaha

  4. Lu.Moraes disse:

    Com certeza vai a carona.
    Obrigada Salete e Ro, impossível ler um post assim e não brotar uma semente.

  5. Mica disse:

    Fantástico, amei!!! Vou correndo procurar este livro!!! 😛

  6. Jaquee disse:

    Sensacional!!! Muito legal saber mais sobre esse livro que inspirou tanta gente, inclusive o Johnny. Que pena mesmo que o projeto dele não deu certo..
    Parabéns Ro, pelo ótimo trabalho! Parabens também pra Sa, vocês foram fantasticas!

  7. CamilaD disse:

    Parabéns Ro e Salete, o post ficou ótimo.

  8. Kelly Kris disse:

    Que post Maravilhoso Ro e Sa!! Parabéns!! adorei saber as histórias, nossa um livro escrito em 3 semanas!! amei uma inspiração!!!

  9. Bea disse:

    Salete e Ro, o post ficou maravilhoso!
    Parabéns! Tenho muita vontade de ler esse livro.
    Ansiosa para a segunda parte!! <3

  10. Crystal disse:

    Aaaahhh!!!
    Ano passado li o post do blog de um texto que o Johnny fez e foi publicado na revista Rolling Stone em 1999: “Kerouac, Ginsberg, Os Beats e outros bastardos que arruinaram a minha vida”.
    Pesquisei mais e decidi que TINHA que ler esse livro que mudou tanto a vida do Johnny e de mais um monte de gente.
    Hoje é meu segundo livro preferido. Sal e Dean viraram meus loucos preferidos e não me canso de ler o livro.
    Johnny também é cultura! Se não fosse por ele e, óbvio, pelo Depplovers eu jamais teria descoberto esse maravilhoso livro!
    Obrigada gente!

  11. Laura disse:

    Literatrura – sempre tão bem-vinda!!!

  12. Pri disse:

    Ro e Salete parabéns pelo maravilhoso post!!! Fiquei muito curiosa em ler o livro!!!

  13. Malu Depp disse:

    Adorei o post! MUITO BOM!! 😉

  14. Andréa disse:

    deu ate vontade de ler

  15. Joana disse:

    amei!!! vou procurar o livro! louca pra ler! 😀 obg pela dica meninas. adorei o post! 😮

  16. Lu disse:

    Incrível a quantidade de pessoas influenciadas por esse livro! E imagina, o original? Um mito mesmo!! Um verdadeiro tesouro!

    Obrigada Ro por compartilhar seus conhecimentos sobre On The Road e foi numa hora ótima, o filme estreiou semana passada nos cinemas brasileiros e está em cartaz em quase todo Brasil! :mrgreen:

  17. Ninalee disse:

    Obrigada, Ro. Esta foi sem duvida uma super aquisicao para o Blog ! Parabens!

  18. jeeh disse:

    Precisei de tempo, muito tempo até ler esse post. Se aceito a carona? Não há dúvidas.
    Vou correndo até a segunda parte e comento mais lá.
    Só uma coisa a dizer, parabéns Ro!

  19. raquel disse:

    acabei de ler alice e amo ler estou louca pra encontrar esses livros e verções de on the road pra ler 😀

  20. Gabriela Lima disse:

    Adoreiiiii *-*
    Incrivel a capacidade de um boom Livro (:

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